Olhar de vidro, aspectos do Bullying.


Conheci um menino que se podia ver dentro dele, ele tinha um olhar como que de vidro, se fixasse meus olhos com carinho... lá estava ele, sentado num canto de sua alma, abraçando as pernas e escondendo o rosto entre os joelhos, sabia que estava vivo pois sua barriga mostrava um respirar profundo e compassado, de vez em quando deixava escapar um olhar úmido inclinando a cabeça de lado, então eu aproveitava para chamá-lo a se levantar, mas ele sempre voltava a escuridão de seus joelhos, apenas uma vez ele me respondeu “não consigo, não tenho mais forças e desconfio que não mereço sua atenção”. 

De uma forma geral, quem é alvo de bullying, assume este estado e se não for detectado a tempo, as conseqüências podem ser avassaladoras, “uma brincadeira com características de perseguição”, isto caracteriza o bullying, mas é difícil estabelecer limites entre a brincadeira e a perseguição. Numa sociedade sem tempo e sem compromisso com o próximo, só acordamos para este fato quando atinge nossas próprias vidas ou a sociedade de forma trágica, virando caso de estudo, como fenômeno social, por pessoas competentes.

Mas enquanto se estuda um fenômeno social, se afasta do individuo a responsabilidade e comprometimento, ampliando a macro visão do tema e esquecendo-se do micro ou alvo, aquele que sofre é muitas vezes transformado em estatística e por falar em estatísticas: principalmente de 10 a 15 anos, principalmente meninos (64%), principalmente na sala de aula, 40% dos alunos envolvidos, 80% dos agressores foram vítimas de agressões dentro de casa, 52% incidência de apelido pejorativo e discriminatório, 50% dos alunos espera que o prof. Intervenha, 50% das vítimas não informam o ocorrido é claro que os números são expressivos e devem ser considerados, mas devemos manter o foco e detectar o quanto antes o bullying, para evitar ou minimizar as conseqüências.

Conseqüências para a vítima: Baixa auto-estima, passividade, transtornos emocionais, problemas psicossomáticos, depressão, tentativa de suicídio. Conseqüências para o agressor: Dificuldades de convivência, atitudes autoritárias e violentas, atitudes delinqüentes ou criminosas.

Mas eu não consigo deixar de pensar no menino de olhar de vidro, li e estudei muito sobre bullying, o que me permitiu agir de forma mais assertiva diante dele, não fez que ele ficasse de pé, mas estabelecemos um contato claro e concordamos em alguns aspectos, nos aproximou e valorizou sua situação e pela primeira vez levantou a cabeça para olhar ao redor, não soltou os joelhos, mas permitiu um suave sorriso de esperança, fizemos progresso.

Os pequenos progressos foram responsáveis por novo alento e as visitas ficaram mais freqüentes, passei a me olhar mais no espelho e procurar os olhos de vidro que me permitiam um contato com meu interior, de onde eu tinha dificuldades de sair, tentei mostrar meu olhar, mas não encontrei carinho que pudesse ver meu interior, até ouvir uma voz, que por muito tempo pensei ser a minha voz, lá estava Ele me estendendo a mão, podia ver tudo e decidido a levantar estiquei lentamente minha mão, num sinal me indicou para estender a outra mão em direção a sua Mãe e ambos em um suave porem vigoroso movimento me puseram de pé e apoiaram até sentir firmeza e poder caminhar e me conduziram para fora do olhar de vidro.

Permanecendo em mim, o Filho e a Mãe, preenchem todos os espaços vazios com caridade, foi assim que Jesus e Maria se revelaram em minha vida, sou gago e por muito tempo fui alvo de bullying, o amor humano me ajuda a ultrapassar meus limites, mas foi o amor Divino que me carregou no colo e me empurrou para fora, para vida, alem de meu olhar de vidro.

Só poderemos enfrentar eficazmente o bullying como fenômeno social, com estratégias legais e políticas adequadas, mas só podemos salvar o individuo com movimentos individuais, incluindo tempo, doação e amor.

(Claudio Ramirez)


Publicado por Ecos Marianos – Almanaque 2012